Sobre o Evento

III Encontro Internacional de Televisão
25 e 26 de novembro de 2004

“Farpas, risos e confusão”
Ulysses Matos
Publicado em Jornal do Brasil - 29 de Novembro de 2004

Descontração e participação da platéia dão o tom de seminário sobre os rumos da TV. As qualidades e os defeitos da TV podem gerar discussões das mais tumultuadas, das mais inteligentes e das mais engraçadas, como foram as mesas realizadas no III Encontro Internacional de Televisão, que terminou sexta-feira.

Organizado pelo Instituto de Estudos de Televisão, o evento durou dois dias, recebendo palestrantes de vários países e platéias que quase lotaram o auditório do Arte Sesc Flamengo.

Na primeira mesa do dia, “Atalhos e Obstáculos da TV Popular”, o jornalista Nelson Rubens, apresentador de um programa de fofocas na Rede TV! - ''Fofocas em formato jornalístico'', fazia questão de frisar -, dividiu espaço com o deputado federal Mateus Afonso Medeiros, da campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, e a pesquisadora argentina de novela Nora Mazziotti.
           
"Dividiu'', na verdade, não descreve bem a atuação de Nelson Rubens, já que o jornalista o tempo todo interrompia os colegas. A atitude levou o público a reclamar de seus excessivos apartes. Mas a empolgação de Rubens não causou tanta confusão quanto a pergunta que dirigiu a Mateus, questionando se cenas que mostram moças em situação romântica na novela Senhora do destino, na Globo, não deveriam ser também alvo da campanha contra a baixaria.
 
Nesse momento, algumas pessoas da platéia acusaram Nelson Rubens de ser preconceituoso, enquanto outras vaiavam o jornalista. Mateus então explicou que o homossexualismo não é um caso passível de ataque.

- Na época da novela Mulheres apaixonadas, alguns telespectadores também denunciaram cenas com outro casal de lésbicas. Nosso grupo de discussão é composto por representantes de vários setores. Há gente da Igreja Católica e evangélicos, mas há também pessoas de grupos que lutam contra o preconceito sexual. Ao final, a campanha não condenou os personagens. Ao contrário, considerou um avanço na TV - disse Mateus.

Ao falar sobre a campanha promovida pela Câmara dos Deputados, Mateus explicou que o objetivo não é tirar do ar atrações consideradas ruins, de baixa qualidade. A luta é para preservar os direitos humanos de quem aparece ou é retratado nos programas, denunciando os que agem mal.

- Temos conseguido vitórias. O Cidade Alerta e o Programa do Ratinho mudaram muito - disse Mateus, que ainda evitou uma saia-justa quando perguntaram, da platéia, se o TV Fama, de Nelson Rubens, tinha conteúdo condenável por expor a vida das pessoas.

O deputado respondeu que morava em Brasília e que como lá não tem Rede TV! ele nunca viu a atração. Rubens se defendeu, dizendo que notícia com pessoas públicas é fato jornalístico.

As mesas seguintes foram “Reality Shows” - na qual o diretor do Museu de Rádio e Televisão de Los Angeles e Nova York, Ron Simon, apresentou cenas raras dos primeiros programas do gênero, como o Candid camera e An american family - e “Caminhos para a TV Digital”.
           
Mas o clima de seriedade acabou definitivamente com a mesa de encerramento, “Transgressão e Novos Modelos de Programação”, com os humoristas Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta; Rodrigo Scarpa, o Repórter Vesgo do Pânico na TV; e o diretor de programação da MTV, Zico Góes. Todos falaram sobre como a quebra dos padrões pode contribuir para o sucesso na TV, mas o que imperou foram as piadas. Mediador do debate, o jornalista Nelson Hoineff passou a ser chamado de Nelson Rubens por Madureira e Scarpa, que fizeram pequenos e amigáveis duelos de humor.

Os gracejos não pouparam Clodovil, Alexandre Frota (''Esse sim é um transgressor'', disse Madureira referindo-se aos filmes pornôs do ator), Carla Perez, Gugu Liberato, o padre Marcelo Rossi, advogados, mulheres e até a Igreja. Apesar de tanta descontração, o público fez perguntas sérias aos integrantes da mesa, principalmente a Zico Góes. Ouvindo elogios de Marcelo Madureira ao Pânico na TV, Scarpa resumiu o que é ser um transgressor:

- Estamos sempre discutindo os limites para o que podemos fazer no programa. O quadro “Hora da morte”, por exemplo, foi extinto porque desagradava a muita gente e porque não tinha mais para onde ir. Só faltava matarmos alguém em cena.